A automação da arte como uma forma de pensamento acrítico
- biancagonzalezarte
- 25 de jun.
- 2 min de leitura

Embora eu procure ao máximo não utilizar softwares de inteligência artificial em minhas criações, reconheço que eles podem ter sua importância quando usados como ferramentas de suporte em aspectos específicos do processo, como: revisões, coleta de informações e organização pessoal, desde que utilizados de maneira pontual.
Atualmente, as redes sociais estão saturadas de conteúdos gerados por inteligência artificial, que variam desde novelas com frutas como protagonistas, simulações de situações engraçadas e inusitadas escritas por prompts, até vídeos hiper produzidos que parecem ter saído de estúdios Hollywoodianos, todos destinados a proporcionar entretenimento rápido e conteúdos altamente compartilháveis nas telas de nossos smartphones, resultando, assim, em remuneração indireta através de parcerias e comissões com empresas. Não é novidade que o treinamento e a operação diária da Inteligência Artificial consomem quantidades significativas de água. A água é primordialmente utilizada para resfriar as gigantescas instalações de processamento de dados (data centers) que tratam as informações, além de ser consumida na geração da eletricidade que abastece esses sistemas. Uma pesquisa rápida é suficiente para concluir que o impacto ambiental é imensurável.
Podemos esperar de grandes corporações a adoção e o aproveitamento deste modelo de produção de conteúdo eletrônico insustentável e irresponsável; afinal, reduzir a contratação de profissionais especializados para diversas funções, e consequentemente os investimentos em salários, é um sonho para as empresas. A prioridade é a acumulação de capital para poucos, enquanto trabalhadores e quaisquer causas ecossistêmicas são meros obstáculos. Entretanto, quando se trata de empresas ou coletivos ativistas e artistas de grande destaque nacional que usam inteligência artificial como a principal ferramenta em seus trabalhos, nos questionamos até que ponto nossa classe está se tornando conivente e propagadora dessa mesma visão de mundo capitalista irresponsável e individualista.
Com isso, não pretendo igualar artistas a grandes empresas monopolistas, mas sim provocar o desconforto da reflexão sobre seus métodos de produção artística. Esta semana, vi no Instagram um vídeo sobre preservação ambiental criado inteiramente com inteligência artificial e não pude deixar de lembrar de Adorno, que acreditava que a arte deveria expor contradições e estimular o pensamento crítico. É bastante estranho que cada vez mais artistas e criadores de conteúdo engajados estejam se submetendo à lógica da simplificação nas tarefas e à falta de questionamentos sócio-políticos relacionados ao impacto das IAs na substituição da mão de obra humana.
Entende-se, contudo, que o meio artístico seja elitista e ingrato, uma vez que artistas independentes dedicam suas vidas a produções mal remuneradas e muitos morrem no esquecimento, mas quando tem a sorte de ascender, deveriam, ao menos, cultivar uma consciência coletiva em relação ao seu meio. O que pretendo dizer é simples: ao invés de produzirem imagens e vídeos através da automação, por que não considerar contratações ou parcerias com fotógrafos, videomakers, editores de vídeo, roteiristas e outros profissionais da área?
Ser artista, em teoria, deveria ser subversivo, mas progressivamente este ofício está se moldando aos interesses da indústria cultural descrita por Adorno e Horkheimer, transformando as produções artísticas contemporâneas em mercadorias de baixo valor crítico e cada vez mais individualistas.
Se nós, produtores do ramo criativo, buscarmos nos politizar e compreender a sociologia por trás da nossa ocupação, ainda haverá esperança. Precisamos compreender que somos vetores para mudanças e enxergar o nosso papel dentro do sistema que estamos inseridos.
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